24 horas num hospital público: o retrato de um SNS à beira do colapso
Reportagem imersiva: 24 horas dentro do maior hospital público de Portugal revelam um sistema de saúde sustentado pela dedicação de profissionais exaustos.
A nossa equipa passou 24 horas ininterruptas no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, para documentar a realidade de quem cuida e de quem é cuidado no maior hospital do país.
06:00 — A troca de turno
As enfermeiras do turno da noite entregam o serviço com olheiras profundas. Na urgência, há 47 doentes em macas nos corredores. A taxa de ocupação oficial é de 118%. "Já houve noites de 140%", diz a enfermeira chefe, que pede para não ser identificada.
10:00 — A consulta que nunca chega
Na sala de espera da consulta externa, encontramos D. Maria, de 74 anos, que esperou 14 meses por uma consulta de ortopedia. "Já não consigo andar direita", conta. "Mas disseram-me que era este o tempo normal."
15:00 — O médico que faz três turnos
O Dr. Carlos tem 32 anos e é internista. Está no seu terceiro turno consecutivo — 36 horas sem dormir. "Fazemos isto porque os doentes não podem esperar", explica enquanto analisa um TAC no corredor, porque não há gabinetes disponíveis.
22:00 — A urgência que transborda
À noite, a urgência atinge o pico. Chegam ambulâncias a cada 8 minutos. Há doentes no chão. Uma família chora num canto. O sistema está desenhado para 80 doentes; há 130.
O que aprendemos
Em 24 horas, testemunhámos dedicação extraordinária de profissionais exaustos, num sistema que sobrevive da sua boa vontade. O SNS não morreu — mas está em cuidados intensivos.